Cresce a turma de jovens que desenha e produz os próprios móveis

A_psicologa_Fernanda_Leite_fez_o_curso_Coisas_de_Madeira_-_Monica_Imbuzeiro_-_Agencia_O_Globo.jpg

Quem são, o que pensam e onde aprendem e trabalham os integrantes da geração ‘faça você mesmo’

Um cheiro amargo impregna o ar. No centro de um imenso galpão na Praça da Bandeira, o designer Gustavo Falcão, de 27 anos, desempena uma tábua de madeira usando uma máquina que solta lascas em profusão, exalando um instigante aroma.

— Olha como a madeira esquentou e ficou cheirosa. Tem que esperar esfriar e secar para manusear de novo — explica Gustavo, farejando a peça.

Na outra ponta, a designer Carolina Bosco, de 27, lixa com delicadeza um pedaço de pínus. Os anéis nas mãos (três em uma e quatro em outra) não a atrapalham em nada. Os dois usam máscaras, e jeans e camisetas de malha surrados. Ao fundo, numa caixa de som, Caetano Veloso embala o dia de trabalho na Oficina S/A, cuja especialidade é a marcenaria. O produto final ao qual Gustavo e Carolina querem chegar são dois nichos de parede em forma de triângulo. As estruturas servirão como modelo de uma aula que eles e os arquitetos Vinicius Cesar, de 30, e Leonardo Penteado, de 33, darão para admiradores do ofício.

Coletivo em galpão onde funcionou uma borracharia na Praça da Bandeira - Guito Moreto / Agência O Globo

Coletivo em galpão onde funcionou uma borracharia na Praça da Bandeira - Guito Moreto / Agência O Globo

— Somos uma geração de makers. De pessoas que não contratam mais um faz-tudo, que desenham e criam seus próprios móveis. Quando percebemos essa demanda, decidimos abrir as portas da oficina para trocar experiências. Será um fab lab — conta Carolina.

Designer que presta inspiração a esta turma, Ricardo Graham, da grife Oebanista, reconhece a explosão da marcenaria.

— Tem um movimento de fazer as coisas à mão que está caindo no mundo de novo. As pessoas criam seu móvel, seu jardim, sua roupa. Por mais que parte do conhecimento seja superficial, é interessante experimentar — reflete Ricardo.

Apesar de o curso na Oficina S/A ainda não ter começado, o espaço já vem sendo usado como um co-working de madeira. Também circulam por lá a figurinista Victoria Carvalho, de 25, e a socióloga Francine Albernaz, de 31. A primeira trabalha com cenografia para casamentos e criou peças personalizadas para usar nas festas. Francine elaborou luminárias que distribuirá como recompensa de um projeto de crowdfunding do qual sua empresa, a Maloca Querida, está participando.

— Estou alugando o espaço por mês. Já tive uma salinha no galpão, mas abri mão para ficar só com a parte de marcenaria — diz Francine.

Antes de acolher a oficina, há dois anos, o espaço foi uma borracharia. Com piso de ladrilho hidráulico, aliás. Pneus, uma corrente para suspender carros e vestígios de graxa dividem o atual cenário com desempenadeira, desengrosso, esmerilhadeira, torno, serra de mesa e outras máquinas barulhentas e de nomes nada familiares.

Nos dias de curso, os professores Carolina, Gustavo, Leonardo e Vinicius farão um rodízio em cada uma delas. Num painel, estão pendurados serrotes, plainas, martelos, chaves de fenda e tesouras. Para montar o acervo, a turma desembolsou R$ 18 mil.

— Reaproveitamos muita coisa. Jogamos jato d’água, pintamos as paredes e compramos as máquinas — conta Gustavo, que tem uma oficina de marcenaria em casa (ele é autodidata). — No início, era assustador mexer nelas. Mas o máximo que aconteceu foi me machucar pisando em prego.

Gustavo Falcão em ação no galpão da Oficina S/A - Guito Moreto / Agência O Globo

A turma também improvisou um escritório lá. Construíram uma escada de madeira, claro, com um guarda-corpo de corda, que dá acesso a um mezanino. Bancada e rack de TV também foram confeccionados no esquema do it yourself.

Uma imagem de São José, o carpinteiro, estampada num azulejo na fachada da casa ocupada pelo Criativo Mutuá, no Rio Comprido, é uma feliz coincidência. Há um ano, o grupo que também representa esta nova geração de marceneiros se instalou no endereço sem reparar no santinho.

— A casa chegou até a gente. A mãe de uma amiga estava alugando, nós estávamos numa fase de transição de carreira, e decidimos nos juntar. Foi uma surpresa quando vimos o santo. Lá embaixo também tem São Jorge e São Judas Tadeu — observa Fernanda Leite, de 28, formada em Psicologia.

A psicóloga Fernanda Leite fez o curso Coisas de Madeira - Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo

Detonado é a palavra que melhor resume o estado do imóvel quando chegaram. Pintar uma parede no estilo quadro-negro e ajeitar o jardim foram algumas das missões que o coletivo encarou. Reformar a parte elétrica e arrumar o banheiro, eles terceirizaram. Além de Fernanda, a designer gráfica Marla Rabelo, de 36, a engenheira Alessandra Evangelho, de 30, e o publicitário Mathias Astúa, de 34, recheiam o Criativo Mutuá. Depois dos reparos, veio a compra das máquinas.

O trabalho é dividido em diferentes combinações e o espaço também funciona como uma cooperativa, com cursos e workshops. Todos têm peças autorais e assinam uma linha em grupo. O filhote mais recente é uma marca de brinquedos e mobiliário infantil em madeira de reflorestamento, batizada de Curioso Sabiá.

— Projetamos um circuito para ajudar no desenvolvimento motor e psicológico de crianças da primeira idade. Aproveitamos e fizemos brinquedos para as mais velhas — explica Mathias, que estudou ebanisteria na França.

Integrantes do Criativo Matuá e do Bambuê ocupam casa no Rio Comprido - Mônica Imbuzeiro / Agência O Globo

A marcenaria entrou na vida dessa turma por acaso. Mathias aproveitou a temporada que passou na Europa para se aprimorar (“Sempre gostei de montar coisinhas”, ele diz). Marla, Alessandra e Fernanda se esbarraram no curso Coisas de Madeira, em Niterói.

— A gente cria muito no computador. Ver a coisa pronta é a maior realização — sustenta Marla.

Em se tratando de madeira, ela arrasa na produção de vasos para terrários e também faz os minijardins. Se o assunto for gastronomia, alegra os dias na oficina quando leva um bolinho de banana. Já o xodó de Alessandra é uma mesinha de cabeceira com pé palito. Ela também assina uma bike truck que está estacionada no Bossa Nova Mall, no Aeroporto Santos Dumont, em parceria com Fernanda. Mathias se orgulha de um banco com um tabuleiro e peças de xadrez ao centro.

— São peças únicas, não tem como fazer uma tiragem grande, é um trabalho muito manual — resume Alessandra.

A casa ainda tem um anexo ocupado por Fabiana Carvalho, de 29, e Leonardo Soares, de 28. Os dois são craques na produção de estruturas em bambu.

Professor do curso de Design de Mobiliário do Istituto Europeo di Design (IED), na Urca, Fernando Vaccari festeja o crescimento da marcenaria no Brasil, mas pondera que o ofício nunca foi o nosso ponto forte.

— O trabalho manual não é valorizado no Brasil, sempre esteve associado a uma posição de segunda categoria. Nos Estados Unidos, é comum as pessoas terem oficina em casa. Mas isso está mudando, o brasileiro está despertando para a necessidade do “faça você mesmo” — percebe Fernando. — A marcenaria tem valor afetivo. O homem, e a mulher também, porque não há mais distinção, se reconhecem naquilo que criam.

A carência de cursos profissionalizantes, para ele, dificulta as pesquisas sobre o crescimento real do setor.

— Não é um trabalho que se desenvolve de forma profissional. Uma boa referência é a quantidade de sites, blogs e programas de televisão do gênero que surgiu nos últimos cinco anos e fortalecem esse resgate.

Painel de ferramentas - Guito Moreto / Agência O Globo

Uma pesquisa realizada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) no estado do Rio, em parceria com o Sebrae, revelou que a quantidade de estabelecimentos formais que se dedicam à fabricação de móveis com predominância em madeira subiu de 457 para 629 entre 2006 e 2014. Outro dado levantado por Ricardo Guadagnin, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil e do Mobiliário, integrante também do Fórum do Setor Moveleiro realizado pela Firjan, é que a maioria dos móveis comprados pelos cariocas vem de fora do estado. Ele tem uma teoria de que este processo serve como um empurrão para alavancar o crescimento de oficinas de marcenaria.

— Um fato importante é que 90% dos móveis adquiridos no Rio vêm de fora. Isso gera a insatisfação do consumidor quando ele tem um problema e precisa de reparo. De certa forma, acredito que é também uma motivação para as pessoas pensarem na produção local. Sem falar que o conceito de personalização, de ter uma peça em madeira adaptada para a sua realidade, cresce cada vez mais — opina Ricardo.

Em Niterói, o curso Coisas de Madeira, pelo qual passaram as meninas do Criativo Mutuá, é tipo um ponto de encontro desta turma de novos marceneiros. O “novos” não quer dizer que sejam necessariamente jovens. Atualmente, há alunos de 28 a 75 anos matriculados, de médicos a advogados. Durante seis meses, eles frequentam uma casinha de vila uma vez por semana, onde Diego de Assis montou uma oficina. De lá, já saíram projetos como o banco Trama, do arquiteto Marcos Husky, de 37, e uma luminária assinada pelo designer Thiago Pires, de 36.

Thiago Pires em oficina em Niterói - Leo Martins / Agência O Globo

— Sempre fui ligado em design. Tenho móveis de Charles Eames, Aarne Jacobsen e Verner Panton. Mas queria ter uma peça minha. Passei seis meses fazendo o banco Trama, de compensado naval, todo de encaixe, que uso também como mesa lateral — conta Marcos, que já recebeu encomendas. — Tenho uma fila de espera.

No primeiro encontro, Diego propõe que os alunos façam carinho (mesmo) na madeira. Saber lidar com os defeitos, reconhecer as espécies e entender os tipos de corte são alguns dos toques que ele dá. Ter na ponta da língua o que é madeira de lei, maciça, nobre e de reflorestamento é obrigatório.

— O propósito é ensinar o ofício da marcenaria. Começa com a aprendizagem técnica e entra na parte dinâmica. É bem prático. E não tem trabalho fácil. Mesmo a coisa mais simples, para ser bem feita, dá trabalho — avisa o instrutor.

A madeira — pínus, cedro, freijó, jacarandá, peroba etc. — manuseada varia de acordo com o projeto. E cada oficina tem a sua fonte. Em geral, são compradas em madeireiras nas redondezas mesmo. O material que Diego usa no curso está embutido na mensalidade.

Um nome que se repete em eco entre a turma de novos marceneiros é o do designer de móveis Rodrigo Calixto. Cabeça da Oficina Ethos, no Centro, autor de bancos, escrivaninhas e balanços premiados, ele apoia o formato dos laboratórios compartilhados.

— Durante muito tempo, procurei um espaço como esses. O modelo já nasce com uma demanda existente. Atende a diferentes expectativas, desde o que precisa de um cantinho para ensaiar ao que já tem uma estrutura operacional — observa Rodrigo.

Sobre o encantamento que rodeia o universo da marcenaria, ele é suspeito para falar. Enxerga, de forma lúdica, um futuro promissor:

— Observo tudo de perto, nada produzido na oficina me escapa ao olhar. É uma geração enfeitiçada (risos). A prática, de uma forma geral, é terapêutica. Porém, a marcenaria desperta um convívio diário e intenso com o transformar, o alterar e o construir. E, no meio de todas essas atividades, ainda temos a madeira, que é encantadora em sua própria essência.

 

Fonte: oglobo.globo.com